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Eu – Obra

Olhe nos meus olhos, é tudo o que peço. Olhe para mim. Devore-me. Entenda-me. Desembarace os fios que me cercam, desate os nós. Nós… Envolvidos em abraços e (entre)laços tão profundos quanto a imensidão da minha alma.

Vem. Minhas mãos o convidam: eu permito. Esqueça a coreografia marcada. Deixe que seus traços, tortos e tão sufocados pela técnica, nos conduzam livremente para a grande dança.

E da sisudez que me é exigida no momento, só aproveite o meu semblante. Sereno e inquisidor. Sério e ansioso pelas suas mãos, geometricamente treinadas para me tocar, delineando cada curva da minha personalidade, construindo cada passo do meu ser.

Ser… Vir a ser e transformar. Deixar fluir seus pensamentos, doces encantamentos sussurrados e transbordados em nanquim. Escorridos no papel. Representados em face.

…Gravados… em mim.

Resistência

Eu tenho pena de vocês, calados, que apanham sem reclamar.
Morro. Mas morro honrado, por não silenciar.

Vazio

Nem carvão, nem marfim, nem palco ou tamborim.
Nenhuma forma de arte hoje mostra o que há em mim.

[Até ilustraria... Mas não achei imagem, idem.]

Fio

Saber que a sua poesia deriva de um torpor puramente químico me dá nojo. Ler suas palavras e saber que foram destinadas a pobres putas, duras e sentimentais, me dá nojo. Tenho nojo do que te envolve. Tenho nojo do que um dia pensei que me envolvesse. A ideia da remota possibilidade me dá nojo.

Perdi as referências. Me perdi nas reticências… Entre encontros, passados e intermitências. Lembranças de uma noite mal dormida. Passagens, memórias de outra vida. Idas… Vindas… Nada mudou, afinal. Ponto. Final.

A Balança

E, no fim, o que sobrou? Nada, além do vinho envelhecido. E as pétalas, caídas. E o rum, adormecido. Nada. Nada, além dos sonhos esquecidos. Trapos. Farrapos puídos. O odor fétido do suor amanhecido. A repulsa angustiada. Doída. Nada. Nada, além da melodia frouxa. Da poesia trouxa. Da tarde perdida. Nada. Nada ,além das palavras vãs. Das conversas sãs. Da embriaguez e da vergonha. Nada.  Nada que me convença a acreditar. Nada que me faça continuar. Nada que acrescente no olhar. Nada. Nada, não posso  falar.

Sem ar

É na sua sisudez que eu encontro o caminho certo pros meus devaneios.  Deliciosos delineios nas curvas tortas de seus braços desajeitados. E meus braços, nos seus, entrelaçados. E o sobe-desce dos olhares desencontrados. Dois corpos. Parados. E a sensação constante de suspiro inacabado.

Súplica

Não me traga seus livros – rotos. Não neste dia.
Estou farta do seu perfume – morto. Falsa alegoria.
Deixe que meus espectros descansem em paz.
Suma, de vez.
Me abandone – não questione.
E não ouse voltar.

Desmascarei

Tua musa tem nome, sim. Não minta pra mim. Nome da cor vermelha, da cobra do veneno doce, da morte rápida e dolorida. Nome de poetisa, contista e menina. Nome da mentira, do rubor da tua face, do pecado das curvas imaginárias. Imaginadas. E a realidade transmutada em poesia. As rimas mais belas.Mentira. Mentira. Mentira. O endereço existe e tem pressa.Teu futuro é louco. E sem graça. Teu tesão é pouco. E passa. O meu corpo é meu – não é de graça.

Efêmero

E como a verdade parece única e inabalável, no Presente. Ausente de qualquer forma de maldade ou tentativa de submissão. Descoberta em pedaços, feita em refrão. A comunhão do sincero comprometimento – prometo. Sim. Promessa sem fim, continuamente repetida sem cessar.E o respirar que guarda o segredo. Sério segredo omitido. Escondido debaixo de máscaras e lençóis. Sós. Nós emaranhados perigosamente desembrenhados por quem daria uma vida pra sanar a curiosidade…
Então a maldade vem. Despedaça e dilacera. Acelera o desapontamento. Desprezo; tormento. E o desejo de viagem se desfaz. Abandona a confiança. Faz doer a consciência. Faz morrer o que há – em vão.

Musa

Encontrei tua musa na rua. Nua, despida de qualquer poder de sedução. Jogada às traças, rendida por um par de calças jeans e embrulhada nas páginas secas de um romance qualquer.Muda. Calada e desprovida de sentimentos. Feita em pó, o nó e as sobras do que um dia fez parte de suas lembranças.

Presentes de um passado incerto. Futuro de um Pretérito Imperfeito. E o peito que não mais afaga a cabeça de um poeta desconsertado. Doce e inacabado desequilíbrio que sustenta a ostentação cega do pirata embriagado. Palavras sussuradas num francês mal pronunciado. E o corpo retraído;  fechado – divino veneno, suave pecado – suplicando por um segundo a mais atenção.

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